Descobrir o Taijiquan

Ouviu falar no Taijiquan, mas ainda não compreendeu bem do que se trata? Não está sozinho/a! Esta disciplina chinesa, frequentemente chamada de Tai Chi Chuan (ou simplesmente Tai Chi), é muito mais do que parece. É uma arte que equilibra a meditação em movimento com os princípios de uma antiga arte marcial interna. Não se trata de uma aparente dança, cujos movimentos são expontâneos e sem sentido, mas antes um conjunto de técnicas baseadas em antigos sistemas marciais, encadeadas e desenvolvidas durante centenas de anos, para culminar numa arte marcial de características únicas, de movimentos lentos, suaves e harmoniosos, coordenados com uma respiração natural e mente focada.

Sem nos estendermos muito, vamos tentar compreender no texto que se segue o que é o Taijiquan, desenvolvendo um pouco os conceitos fundamentais que compõem esta arte marcial, aflorando levemente os pontos mais importantes e que normalmente confundem os curiosos. Para compreender de forma mais profunda, vá consultando os artigos que irão sendo publicados neste site.

Marcialidade e meditação

O termo Taijiquan (literalmente, Punho do Grande Supremo) desenvolve a sua fundamentação estrutural utilizando o conceito Taiji proveniente da filosofia secular chinesa, a força primordial que origina o Yin e o Yang. Na prática, utiliza este princípio filosófico para harmonizar e balancear corpo e mente, numa calistenia oscilante entre alto e baixo, frente e trás, esquerda e direita, cheio e vazio, substancial e insubstancial...!

Como arte marcial, distingue-se de outras mais externas (que focam as suas técnicas na força muscular e velocidade) por se concentrar nos aspectos internos da prática, na fluidez e no uso da suavidade para superar a dureza. Como sistema de meditação (dinâmica), ao executar-se esta série de movimentos lentos, contínuos e circulares (normalmente aglutinados em coreografias conhecidas como formas - Taolu), coordenados com uma respiração profunda e ritmada, exige uma concentração mental intensa, sendo esta combinação que transforma a prática num exercício de mindfulness ativo, proporcionando não só uma sensação de bem-estar físico, emocional, mental e forte presença no momento, mas também vantagens físicas consideráveis.

Assim sendo, o Taijiquan é uma arte que desenvolve a sua movimentação tendo como base fundamental uma atenção plena e consciente do corpo e do movimento, sendo ao mesmo tempo arte marcial e meditação dinâmica.

Porquê os movimentos lentos?

A lentidão e a fluidez não são um acaso, antes a chave para compreender a prática do Taijiquan. A movimentação lenta e fluída, é fundamental para o cultivo do Jin, uma espécie de força gerada a partir do interior do corpo. Esta lentidão estratégica permite aumentar a Consciência Corporal Total (Proprioceção), desbloqueando tensões e otimizando o alinhamento da estrutura óssea, coordenar respiração e movimento, estabelecendo um fluxo contínuo que massaja e revitaliza os órgãos internos, e treinar a aplicação marcial com precisão, possibilitando a economia de energia e a perceção subtil da intenção do oponente.

Assim, a prática lenta constrói os alicerces necessários para que, quando exigido, os movimentos possam ser explosivos e eficazes. É na lentidão que corpo e mente aprendem a escutar e a responder com eficiência máxima.

O que é o Qi?

Qi é um conceito abstrato da ancestral filosofia chinesa. De acordo com esta tradição, é a energia vital (muitas vezes interpretado como Sopro, ligado invariavelmente à respiração) que impregna todos os seres vivos e não vivos. No Taijiquan, o objetivo principal não é gerar força muscular, mas sim aprender a cultivar, armazenar e movimentar esta energia vital, o Qi (pronuncia-se "Tchi" não "Ki"), dentro do corpo, tornando-o o combustível dos movimentos, por assim dizer. Através da movimentação lenta, suave, circular e contínua, forma-se uma espécie de mapa que gere e guia o fluxo do Qi. E de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa, é cultivado e armazenado no Dantien (Campo de Cinábrio, situado numa região pouco abaixo do umbigo), tornando-se numa espécie de fornalha de energia, em que a respiração abdominal profunda e lenta coordenada com os movimentos, são a técnica precisa não só para encher o Dantien de Qi, mas também guiá-lo pelo resto do corpo, activando o estado energético deste, fortalecendo-o e estabelecendo uma estrutura forte e poderosa.

Quando o Qi é bem cultivado e pode fluir livremente, transforma-se em Jin permitindo que o praticante execute movimentos que são enraizados e potentes. Em simultâneo, o fluxo de Qi e a respiração profunda massajam internamente os órgãos, promovendo a circulação e o equilíbrio energético, que é a base dos benefícios de saúde da prática do Taijiquan.

Taijiquan como arte marcial

Se por vezes seja difícil perceber gestos marciais observando a exercitação no Taijiquan, ela é mais evidente quando se demonstram duas áreas muito especializadas, menos visíveis e perceptíveis pelo público: Mãos Que Empurram (Tuishou) e a exercitação com armas (Taiji Bingqi).

Mãos Que Empurram é um conjunto de variados exercícios onde se trabalham os princípios marciais do Taijiquan, e se "escutam" e "sentem" as forças adversárias, tocando o adversário com uma ou duas mãos. Embora se assemelhem a uma dança cíclica e repetitiva a dois, numa fase mais avançada terminam em chaves, imobilizações ou derrubes, podendo também terminar com variadas técnicas de punho ou pernas.

A prática com armas é uma outra área do Taijiquan, herdeira de um passado mais bélico e guerreiro, em que a prática destes instrumentos bélicos servia para defesa da própria vida, numa época em que as armas de fogo não existiam. Hoje esta prática é vista como um exercício de lazer, funcionado como uma extensão do corpo, e que essencialmente serve para desenvolver novas habilidades e aptidões, complementares dos exercícios a mãos nuas. As armas mais conhecidas e praticadas são a Espada (Taiji Jian), o Sabre (Taiji Dao) e o Leque (Taiji Shan), cada uma desenvolvendo características técnicas inerentes à própria arma.

Saúde e bem-estar

Não menos importante, e provavelmente a característica que lhe emprestou fama no ocidente, os benefícios para a saúde e bem-estar são um dos factores que mais levam as pessoas a praticar esta disciplina holística. E talvez pela própria natureza lenta e gentil dos seus movimentos, tornou-se bastante popular numa fase etária mais avançada, embora a prática possa ser desenvolvida em qualquer idade sem diferenciação de género. Esta popularidade deve-se sem dúvida ao facto de ser uma modalidade de baixo impacto, permitindo a exercitação sem consequências físicas ou traumáticas para o corpo, bem pelo contrário.

A melhoria do equilíbrio e da coordenação, crucial para a prevenção de quedas, é provavelmente o maior benefício associado a praticantes séniores (e não só), embora a melhoria da flexibilidade e da força muscular de sustentação (em particular nas pernas), seja outro aspecto bastante relevante. E não sendo um exercício anaeróbico de tirar o fôlego, a melhoria da função cardiovascular e da capacidade toráxica relacionada com a respiração é outra característica em que se observam melhorias significativas (aumento do VO2max), optimizando a qualidade de vida.

Estas características físicas resultantes da prática do exercício do Taijiquan, encontram também paralelo a nível de saúde mental, sendo provavelmente a diminuição do stress e da ansiedade, os primeiros sinais de que estamos no caminho certo na prática do Taijiquan. O aumento da concentração e clareza mental, começam lentamente a emergir, desenvolvendo-se um estado de Atenção Plena (mindfulness) capaz de conquistar uma maior serenidade e equilíbrio emocional.

Variantes de Taijiquan

O Taijiquan não se apresenta somente de uma forma; existem numerosas variantes desta modalidade. Taijiquan é um termo genérico que abraça diferentes interpretações do gesto e do movimento. Pese o facto de todas as variações (escolas, linhagens ou famílias) terem uma única origem histórica, evoluiram diferentes formas de olhar para o exercício. As mais conhecidas são as linhagens Chen, Yang, Wu, Wu (diferente família) e Sun. Cada uma tem as suas nuances particulares e idiossincrasias, com o estilo Chen a ser o mais antigo e a incluir movimentos mais vigorosos e espiralados, mais perto do conceito original, e o estilo Yang a ser o mais difundido mundialmente, conhecido pelos seus movimentos amplos e aparentemente menos marciais.

Deixar no entanto o alerta de que fora deste contexto qualificado de maestria e tradição centenar, existem muitas variações criadas mais recentemente, não só pouco ou nada reconhecidos, como por ventura prejudiciais para os praticantes. Basta fazer uma pequena pesquisa online para se perceber se se está perante um sistema reconhecido e com provas dadas, ou uma criação particular por pessoas sem escrúpulos e sem nenhuma preparação pedagógica para o exercício do Taijiquan, cuja objectivo é unicamente a comercialização de uma pretensa versão desta modalidade, ou, eventualmente, a usurpação de credenciais para afirmação de currículo e pedigree do ensino. Na dúvida, efectuar uma profunda pesquisa online procurando informações acerca do instructor, com quem aprendeu, onde obteve a formação e ainda a validade do sistema que afirma ensinar...!

Resumindo, o Taijiquan é uma disciplina que materializa os princípios filosóficos ancestrais do Yin e Yang, ensinando o corpo a mover-se através da interdependência entre a suavidade e a firmeza. Ao ligar a respiração profunda de forma indissociável ao movimento, cultiva-se o Qi – o poder interno que, ao fluir livremente, proporciona não só mais eficácia marcial, mas sobretudo um equilíbrio físico e mental duradouro, oferecendo um caminho de equilíbrio e mestria através da suavidade em movimento.